Quando pergunto "quanto custa sua hora?" pra arquitetos em workshop, 80% responde um número redondo: R$ 80, R$ 100, R$ 150. Quando pergunto como você chegou nesse número, o silêncio é constrangedor. A verdade é que a maioria escolheu o valor por sensação — comparou com colega, lembrou de uma palestra, achou que parecia justo.
O problema é que hora-técnica não é uma opinião. É uma equação contábil que define se o seu escritório vai ou não dar lucro. E ela é mais cruel do que parece: erro de R$ 20 na hora, multiplicado por 140 horas de projeto, vira R$ 2.800 de prejuízo silencioso por contrato.
Por que a hora-técnica é a métrica mais ignorada do escritório
Hora-técnica funciona como o "custo unitário" de uma fábrica. Antes de decidir o preço de venda do produto, a indústria precisa saber quanto custa fabricá-lo. No escritório de arquitetura, o "produto" é uma hora de trabalho qualificado — e quase ninguém calcula esse custo direito.
A consequência aparece em três sintomas clássicos:
- O escritório fatura, mas o sócio não tira pró-labore consistente. Sinal de que o pró-labore não está embutido na hora.
- Projeto "lucrativo" no fechamento vira projeto "no zero" no DRE. Sinal de que o custo fixo não foi alocado.
- Você trabalha 60 horas na semana e ainda assim não consegue férias remuneradas. Sinal de que as horas faturáveis foram superestimadas.
A hora-técnica é o ponto onde sua estrutura de custo encontra seu preço de venda. Se ela está errada, todo o resto do orçamento está errado — independente de qual modelo de cobrança você usar (R$/m², por entrega ou por hora).
Os 4 erros que sabotam o cálculo
Erro 1: Usar 176h/mês como horas faturáveis
Esse é o erro mais comum. 176h é o total de horas trabalháveis no mês (8h × 22 dias úteis). Mas você não fatura 176h. Você fatura as horas que efetivamente entregam projeto pro cliente. O resto é venda, gestão, financeiro, e-mail, reunião interna, hora perdida em retrabalho, férias, feriado. Em escritório saudável, horas faturáveis ficam entre 55% e 70% das horas trabalháveis. Calcular com 176h infla artificialmente o denominador e derruba a hora-técnica.
Erro 2: Esquecer o pró-labore (ou colocar pró-labore "de fome")
Sócio que trabalha no projeto custa caro. Se você é o arquiteto sênior e mete a mão na massa em 60% das entregas, seu pró-labore é custo de mão de obra, não "lucro". Embute o pró-labore que você quer tirar (não o que você está se contentando) na conta. O lucro vem depois — separado.
Erro 3: Não considerar impostos sobre faturamento
Simples Nacional cobra entre 6% e 15,5% sobre o faturamento na maior parte das faixas em que escritórios operam. Esse imposto sai do preço de venda, não do seu lucro. Se você não embute, ele come margem.
Erro 4: Tratar todo mundo do escritório com a mesma hora
Estagiário, júnior, pleno, sênior e sócio têm horas-técnicas diferentes. Se sua planilha tem "hora do escritório = R$ 100", você está cobrando igual pra hora de R$ 35 (estagiário) e a hora de R$ 220 (sócio sênior). O erro só vira lucro quando o sócio executa pouco — caso contrário, você está dando hora cara de graça.
Hora-técnica calculada automaticamente
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Esquece tabela do IAB e fórmula simplificada. Se você quer hora-técnica que reflete a realidade do seu escritório, precisa de quatro variáveis:
Hora-técnica = (Custo fixo mensal + Pró-labore + Tributos esperados) ÷ (Horas faturáveis no mês × Fator de ociosidade) × (1 + Margem-alvo)
Vou destrinchar cada termo:
- Custo fixo mensal: aluguel, software, contador, marketing, energia, internet, salário do time não-sócio (com encargos), material de escritório. Tudo que paga independente de ter projeto.
- Pró-labore: o valor que cada sócio precisa retirar por mês — definido antes da conta, não depois. Se são dois sócios e cada um precisa de R$ 8.000, são R$ 16.000 mensais.
- Tributos esperados: calcule sua alíquota efetiva do Simples sobre faturamento esperado e some à conta. Se você fatura R$ 50 mil/mês e está na faixa de 11%, são R$ 5.500.
- Horas faturáveis: o tempo do time que vai ser cobrado direto do cliente. Não conta hora de venda, gestão ou retrabalho. Vou explicar como medir abaixo.
- Fator de ociosidade: entre 0,55 e 0,75 dependendo da maturidade do escritório. Iniciante = 0,55. Maduro = 0,70.
- Margem-alvo: o lucro que você quer depois de pagar todo mundo. Recomendo entre 25% e 40%.
Como medir horas faturáveis de verdade
Pega um time de 4 pessoas trabalhando 8h/dia × 22 dias = 704h trabalháveis no mês. Dessas, subtraia:
- Horas de gestão e financeiro (~10%)
- Reunião interna, e-mail, alinhamento (~12%)
- Vendas e prospecção (~8%)
- Retrabalho e revisão não cobrada (~6%)
- Férias proporcionais (~9%)
Sobra cerca de 55% para entrega faturável em escritório jovem. Em escritório com processo maduro, sobra 70%. Use esse número, não 100%.
Exemplo passo a passo (escritório real)
Escritório com dois sócios + dois colaboradores júnior. Vamos calcular a hora-técnica média.
Custo fixo mensal:
| Item | Valor |
|---|---|
| Aluguel + condomínio | R$ 3.200 |
| Salário 2 júniors + encargos | R$ 11.800 |
| Software + assinaturas | R$ 1.400 |
| Contador | R$ 800 |
| Marketing + comercial | R$ 2.000 |
| Energia, internet, miscelânea | R$ 1.300 |
| Total custo fixo | R$ 20.500 |
Pró-labore: dois sócios × R$ 9.000 = R$ 18.000.
Tributos esperados: faturamento estimado de R$ 60.000/mês, alíquota efetiva de 12% = R$ 7.200.
Total de custo a cobrir: 20.500 + 18.000 + 7.200 = R$ 45.700/mês.
Horas faturáveis:
- 4 pessoas × 176h = 704h trabalháveis
- Fator de ociosidade saudável: 0,62 (escritório intermediário)
- Horas faturáveis efetivas: 704 × 0,62 = 437h
Hora-técnica de equilíbrio (sem margem):
R$ 45.700 ÷ 437h = R$ 104,57/hora. Esse é o ponto onde o escritório paga as contas, paga os sócios, paga os impostos e fecha no zero. É o piso absoluto.
Hora-técnica com margem-alvo de 30%:
R$ 104,57 × 1,30 = R$ 135,94/hora. Esse é o número que você cobra. Os 30% extras são o lucro que financia crescimento, férias, reserva e investimento.
Tabela de hora-técnica por porte (referência)
Os valores abaixo são uma referência baseada em escritórios brasileiros com estrutura saudável. Use como benchmark — mas nunca pule o cálculo da sua hora real. Realidade local, custo de aluguel e salário variam demais entre regiões.
| Porte | Estrutura | Hora-técnica |
|---|---|---|
| Solo (autônomo) | 1 sócio, sem equipe | R$ 110 – 160 |
| Pequeno | 1–2 sócios + 1–3 colaboradores | R$ 130 – 190 |
| Médio | 2–3 sócios + 4–8 colaboradores | R$ 160 – 240 |
| Grande | 3+ sócios + time consolidado | R$ 200 – 320 |
Essa faixa pressupõe escritório com 30% de margem-alvo embutida. Se sua hora real está abaixo do piso da faixa do seu porte, é porque ou seu custo fixo está fora do padrão (subaluguel, baixo investimento) ou sua margem está muito apertada.
Como usar isso na próxima proposta
Hora-técnica calculada serve pra três coisas práticas:
- Estimar o custo de qualquer projeto. Se você sabe que projeto residencial 180m² consome 130h do time, custa R$ 13.594 só de mão de obra (130 × 135,94). Esse é o piso de composição.
- Conferir se R$/m² está coerente. Se você cobra R$ 90/m² em projeto de 180m², são R$ 16.200. Sobra R$ 2.606 sobre o custo direto — apertado se ainda tem custo fixo a cobrir nesse projeto. Sinal de que a tabela de R$/m² precisa ser revista.
- Justificar valor pro cliente. Quando o cliente questiona "por que tão caro?", você abre a planilha e mostra: 130h de equipe técnica × hora real do escritório. Não é opinião, é conta.
E o mais importante: recalcule a cada três meses. Custo fixo muda, salário muda, imposto muda. Hora-técnica de janeiro provavelmente está errada em julho.
Próximo artigo da série: Tabela de honorários para arquitetura: o que cobrar em 2026 — comparativo entre IAB, R$/m² e custo por entrega, com faixas reais de mercado.