TL;DR Tabela do IAB é referência mínima — não é tabela. Quem cobra IAB literal em 2026 está cobrando o piso da curva. O mercado real opera em três modelos combinados: R$/m² para projeto principal, custo por entrega para extras (render, modelagem, acompanhamento) e hora-técnica para consultoria. Aqui vão as faixas reais que arquitetos brasileiros estão cobrando, e como construir a sua tabela própria.

Toda discussão sobre honorários começa errada. A pergunta correta não é "quanto a tabela do IAB diz que eu devo cobrar?" — é "qual tabela protege a minha margem dado o meu custo, meu portfólio e meu posicionamento?". Tabela do IAB é referência regulatória mínima, não régua de mercado. Quem usa ela literal está deixando entre 30% e 60% de margem na mesa.

Neste guia, comparo os três modelos de cobrança usados em escritórios brasileiros saudáveis, mostro faixas reais de R$/m² e custo por entrega por tipo de projeto, e termino com o método de 5 passos para você construir uma tabela que parte do seu custo real — não da sensação ou do que o concorrente cobra.

Tabela do IAB: o que ela diz e o que rola na prática

A tabela do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) e a referência da CAU/BR servem como balizamento ético — são pisos para evitar desvalorização da profissão. Mas elas têm três problemas estruturais quando usadas como tabela operacional:

  1. Não consideram custo do escritório. A tabela é a mesma pra arquiteto solo trabalhando em casa e pra escritório com 12 pessoas e sala comercial. Custo fixo varia 10x — o preço deveria variar.
  2. Calculadas sobre CUB. Em projeto de baixo padrão, a tabela vira pouco. Em projeto de alto padrão, ela ainda subestima a complexidade e o tempo real de entrega.
  3. Não diferenciam complexidade. Reforma de 80m² com cliente difícil consome 2x mais hora que projeto novo de 80m². A tabela cobra igual.

Resultado: arquitetos que seguem a tabela literal acabam cobrando bem em projetos de alto padrão e abaixo do custo em projetos pequenos. É uma armadilha de regressão à média — e o fluxo de caixa sente.

Os três modelos de cobrança em uso hoje

Modelo 1 — R$/m² escalonado

Cobra-se um valor por metro quadrado, mas com faixa decrescente: o R$/m² é maior em projetos pequenos e cai conforme a área aumenta. Bom pra escopo padronizado (residencial novo, comercial padrão).

Modelo 2 — Custo por entrega

Cobrança por pacote fechado. Anteprojeto = X. Executivo = Y. Modelagem 3D = Z. Compatibilização = W. Bom pra cliente que quer previsibilidade de investimento.

Modelo 3 — Hora-técnica

Cobra-se por hora de trabalho qualificado. Bom pra escopo aberto: consultoria, acompanhamento de obra, alterações pós-entrega. Ruim pra projeto com escopo fechado — o cliente não consegue prever total.

Na prática, todo escritório saudável usa os três combinados. R$/m² no contrato principal, custo por entrega nos add-ons, hora-técnica no que vier depois. Tabela única não dá conta da realidade.

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Faixas reais — projetos residenciais

Os números abaixo são compilados de escritórios brasileiros entre pequenos e médios, com estrutura saudável (margem-alvo entre 25% e 40%). Use como benchmark, sempre cruzando com sua hora-técnica real.

Projeto residencial novo (escopo executivo completo)

ÁreaPadrãoR$/m² 2026
Até 100m²MédioR$ 180 – 260
100–200m²Médio-altoR$ 130 – 200
200–400m²AltoR$ 90 – 160
400m²+Alto / luxoR$ 70 – 130

Reforma residencial

Reforma cobra mais que projeto novo, em geral 30–50% acima — porque tem levantamento, compatibilização com existente e mais reuniões.

ÁreaPadrãoR$/m² 2026
Até 80m²MédioR$ 220 – 340
80–150m²Médio-altoR$ 180 – 280
150–300m²AltoR$ 140 – 240

Projetos abaixo de 50m² geralmente devem ter valor mínimo fechado (entre R$ 9.000 e R$ 18.000), porque o R$/m² fica proibitivo e não cobre o custo fixo de coordenação.

Faixas reais — comercial e interiores

Projeto comercial (lojas, escritórios, clínicas)

TipologiaR$/m² 2026
Loja de varejo até 80m²R$ 240 – 380
Escritório corporativo 100–300m²R$ 180 – 260
Clínica / consultórioR$ 220 – 340
Restaurante / caféR$ 260 – 420

Interiores (residencial pronto)

EscopoR$/m² 2026
Decoração leve (mobiliário e acabamento)R$ 120 – 200
Interior completo (executivo + marcenaria)R$ 220 – 380
Interior com reformaR$ 320 – 520

Custo por entrega — extras

EntregaFaixa 2026
Modelagem 3D (apto/casa padrão)R$ 1.800 – 4.500
Render foto-realista (por imagem)R$ 380 – 900
Compatibilização de projetoR$ 4.500 – 14.000
Acompanhamento de obra (visita + relatório)R$ 380 – 850 / visita
Memorial descritivo completoR$ 1.200 – 3.200

Como construir sua tabela em 5 passos

Os números acima são referência. Sua tabela tem que partir do seu custo real. Os 5 passos:

  1. Calcule sua hora-técnica real com a fórmula completa (custo fixo + pró-labore + impostos ÷ horas faturáveis × margem). Esse é o piso de tudo. Se você ainda não fez essa conta, leia o artigo dedicado antes de seguir.
  2. Estime horas por tipologia. Quantas horas seu time gasta, em média, num projeto residencial 150m² executivo? E numa reforma 80m²? Use os últimos 5 projetos como base.
  3. Multiplique e converta para R$/m². Hora-técnica × horas estimadas ÷ área = seu R$/m² mínimo. Adicione a faixa de flexibilidade (10–20%) para negociação.
  4. Defina valor mínimo por contrato. Abaixo de uma certa área, o R$/m² perde sentido. Estabeleça pisos: nunca menos que R$ X em residencial, R$ Y em comercial.
  5. Documente a tabela e socialize com o time. Tabela na cabeça do sócio é tabela inexistente. Coloca em planilha (ou, melhor, na plataforma) e treina quem vende a aplicar sem desconto reflexo.

Quando (e como) revisar a tabela

Tabela de honorários não é monumento — é organismo vivo. Revise:

  • A cada 3 meses — confere se hora-técnica e custo fixo continuam consistentes.
  • Sempre que entra ou sai colaborador — estrutura de custo muda.
  • Quando muda faixa do Simples Nacional — alíquota sobe, margem cai se você não atualiza.
  • Em janeiro — reajuste anual mínimo do INPC + 2%. Sem reajuste, você está perdendo poder de compra todo ano.

Tabela boa é tabela usada. Se ela está numa pasta esquecida e você ainda precifica por sensação, o problema não é a tabela — é o processo. A virada começa quando você consegue olhar pra qualquer briefing e ter em 30 segundos uma faixa de preço defensável.


Próxima leitura: Qual a margem de lucro saudável para um projeto de arquitetura? — benchmarks por porte e os 4 vazamentos de margem mais comuns.