Toda discussão sobre honorários começa errada. A pergunta correta não é "quanto a tabela do IAB diz que eu devo cobrar?" — é "qual tabela protege a minha margem dado o meu custo, meu portfólio e meu posicionamento?". Tabela do IAB é referência regulatória mínima, não régua de mercado. Quem usa ela literal está deixando entre 30% e 60% de margem na mesa.
Neste guia, comparo os três modelos de cobrança usados em escritórios brasileiros saudáveis, mostro faixas reais de R$/m² e custo por entrega por tipo de projeto, e termino com o método de 5 passos para você construir uma tabela que parte do seu custo real — não da sensação ou do que o concorrente cobra.
Tabela do IAB: o que ela diz e o que rola na prática
A tabela do IAB (Instituto de Arquitetos do Brasil) e a referência da CAU/BR servem como balizamento ético — são pisos para evitar desvalorização da profissão. Mas elas têm três problemas estruturais quando usadas como tabela operacional:
- Não consideram custo do escritório. A tabela é a mesma pra arquiteto solo trabalhando em casa e pra escritório com 12 pessoas e sala comercial. Custo fixo varia 10x — o preço deveria variar.
- Calculadas sobre CUB. Em projeto de baixo padrão, a tabela vira pouco. Em projeto de alto padrão, ela ainda subestima a complexidade e o tempo real de entrega.
- Não diferenciam complexidade. Reforma de 80m² com cliente difícil consome 2x mais hora que projeto novo de 80m². A tabela cobra igual.
Resultado: arquitetos que seguem a tabela literal acabam cobrando bem em projetos de alto padrão e abaixo do custo em projetos pequenos. É uma armadilha de regressão à média — e o fluxo de caixa sente.
Os três modelos de cobrança em uso hoje
Modelo 1 — R$/m² escalonado
Cobra-se um valor por metro quadrado, mas com faixa decrescente: o R$/m² é maior em projetos pequenos e cai conforme a área aumenta. Bom pra escopo padronizado (residencial novo, comercial padrão).
Modelo 2 — Custo por entrega
Cobrança por pacote fechado. Anteprojeto = X. Executivo = Y. Modelagem 3D = Z. Compatibilização = W. Bom pra cliente que quer previsibilidade de investimento.
Modelo 3 — Hora-técnica
Cobra-se por hora de trabalho qualificado. Bom pra escopo aberto: consultoria, acompanhamento de obra, alterações pós-entrega. Ruim pra projeto com escopo fechado — o cliente não consegue prever total.
Na prática, todo escritório saudável usa os três combinados. R$/m² no contrato principal, custo por entrega nos add-ons, hora-técnica no que vier depois. Tabela única não dá conta da realidade.
Sua tabela atualizada automaticamente
No Limify você cadastra sua tabela com os três modelos, e a plataforma aplica a precificação correta automaticamente conforme o tipo de projeto. Quando seu custo muda, sua tabela muda — sem planilha quebrada.
Testar grátisFaixas reais — projetos residenciais
Os números abaixo são compilados de escritórios brasileiros entre pequenos e médios, com estrutura saudável (margem-alvo entre 25% e 40%). Use como benchmark, sempre cruzando com sua hora-técnica real.
Projeto residencial novo (escopo executivo completo)
| Área | Padrão | R$/m² 2026 |
|---|---|---|
| Até 100m² | Médio | R$ 180 – 260 |
| 100–200m² | Médio-alto | R$ 130 – 200 |
| 200–400m² | Alto | R$ 90 – 160 |
| 400m²+ | Alto / luxo | R$ 70 – 130 |
Reforma residencial
Reforma cobra mais que projeto novo, em geral 30–50% acima — porque tem levantamento, compatibilização com existente e mais reuniões.
| Área | Padrão | R$/m² 2026 |
|---|---|---|
| Até 80m² | Médio | R$ 220 – 340 |
| 80–150m² | Médio-alto | R$ 180 – 280 |
| 150–300m² | Alto | R$ 140 – 240 |
Projetos abaixo de 50m² geralmente devem ter valor mínimo fechado (entre R$ 9.000 e R$ 18.000), porque o R$/m² fica proibitivo e não cobre o custo fixo de coordenação.
Faixas reais — comercial e interiores
Projeto comercial (lojas, escritórios, clínicas)
| Tipologia | R$/m² 2026 |
|---|---|
| Loja de varejo até 80m² | R$ 240 – 380 |
| Escritório corporativo 100–300m² | R$ 180 – 260 |
| Clínica / consultório | R$ 220 – 340 |
| Restaurante / café | R$ 260 – 420 |
Interiores (residencial pronto)
| Escopo | R$/m² 2026 |
|---|---|
| Decoração leve (mobiliário e acabamento) | R$ 120 – 200 |
| Interior completo (executivo + marcenaria) | R$ 220 – 380 |
| Interior com reforma | R$ 320 – 520 |
Custo por entrega — extras
| Entrega | Faixa 2026 |
|---|---|
| Modelagem 3D (apto/casa padrão) | R$ 1.800 – 4.500 |
| Render foto-realista (por imagem) | R$ 380 – 900 |
| Compatibilização de projeto | R$ 4.500 – 14.000 |
| Acompanhamento de obra (visita + relatório) | R$ 380 – 850 / visita |
| Memorial descritivo completo | R$ 1.200 – 3.200 |
Como construir sua tabela em 5 passos
Os números acima são referência. Sua tabela tem que partir do seu custo real. Os 5 passos:
- Calcule sua hora-técnica real com a fórmula completa (custo fixo + pró-labore + impostos ÷ horas faturáveis × margem). Esse é o piso de tudo. Se você ainda não fez essa conta, leia o artigo dedicado antes de seguir.
- Estime horas por tipologia. Quantas horas seu time gasta, em média, num projeto residencial 150m² executivo? E numa reforma 80m²? Use os últimos 5 projetos como base.
- Multiplique e converta para R$/m². Hora-técnica × horas estimadas ÷ área = seu R$/m² mínimo. Adicione a faixa de flexibilidade (10–20%) para negociação.
- Defina valor mínimo por contrato. Abaixo de uma certa área, o R$/m² perde sentido. Estabeleça pisos: nunca menos que R$ X em residencial, R$ Y em comercial.
- Documente a tabela e socialize com o time. Tabela na cabeça do sócio é tabela inexistente. Coloca em planilha (ou, melhor, na plataforma) e treina quem vende a aplicar sem desconto reflexo.
Quando (e como) revisar a tabela
Tabela de honorários não é monumento — é organismo vivo. Revise:
- A cada 3 meses — confere se hora-técnica e custo fixo continuam consistentes.
- Sempre que entra ou sai colaborador — estrutura de custo muda.
- Quando muda faixa do Simples Nacional — alíquota sobe, margem cai se você não atualiza.
- Em janeiro — reajuste anual mínimo do INPC + 2%. Sem reajuste, você está perdendo poder de compra todo ano.
Tabela boa é tabela usada. Se ela está numa pasta esquecida e você ainda precifica por sensação, o problema não é a tabela — é o processo. A virada começa quando você consegue olhar pra qualquer briefing e ter em 30 segundos uma faixa de preço defensável.
Próxima leitura: Qual a margem de lucro saudável para um projeto de arquitetura? — benchmarks por porte e os 4 vazamentos de margem mais comuns.